I wanna be your little light
 

 
Me deixa ser a luzinha da sua vida?
 
 
   
 
29.1.06
 
Eu gostava de vê-la falar. Aqueles olhões castanhos, fixos nos meus, as mãos que não paravam em posição alguma, sempre em movimento, em todos os movimentos, balançando para todos os lados e se torcendo, fazendo expressões que significavam mais do que mil palavras emparelhadas.
Ela não hesitava, não respirava mais fundo, não parava, não fazia pausa: falava, falava, falava. E eu gostava tanto. Me sentia feliz de vê-la falar. Era um show a parte na minha vida tão mediana.
Então quando falava e ajeitava o cabelo ou a manga da blusa que deixava-lhe escapar um ombro, eu ficava ali parada, dentes à mostra como um cão preso a coleira que olha seu dono subindo a rua de casa. Eu sabia que nada poderia ser melhor do que aquilo. Na verdade eu não queria, não procurava, não ansiava por nada maior ou melhor do que aquilo, porque eu parecia descansar no paraíso qualquer que fosse o assunto que ela tratava.
Sentia como se fosse minha irmã mais velha falando, mesmo ela tendo a mesma idade que eu. Era confortável e bom e único conversar com ela.
E pouco importava se fosse nos botecos sujos da Augusta, ou no carro, ou em bares melhores, ou na casa dela. Importava que minha irmã estava ali e que a felicidade era um biscoito que vinha no mesmo pacote que ela.
E ficava ali, com olhos semicerrados, de sono ou de atenção profunda, degustando aquele momento saboroso de oásis no deserto.
Era como se eu tivesse descoberto mais um pote de ouro no final do arco-íris, não são todos os dias que alcançamos o final do arco-íris e encontramos potes de ouro que valem tanto para o nosso coração. E ela era meu pote de ouro, ficava guardando aquela alegria de encontrá-la para não gastar, como a última colherada de danone que lambemos com tanto gosto e dedicação.
Eu me sentia realmente feliz naquela época, pois tinha poucos refúgios e eles tão especiais e raros, eles eram combustível pra mais de mil horas de vida e às vezes eu me portava como a raposa amiga do Pequeno Príncipe (porque há um desejo profundo dentro deste coração que é ser uma personagem de Antoine de Saint-Exupery, amável, doce, pueril), ficava alegre uma hora antes de encontrá-la, às vezes até um dia todo, com a alegria beirando a explosão e encontrá-la era explodir, era poder deixar toda essa alegria transbordar por todos os poros e risos e aura. Ela deixava eu ser feliz como eu queria ser, ela deixava eu ser qualquer coisa que eu desejasse ou sonhasse na minha cabeça, porque ela era minha irmã.
Ela falava como um rainha, ela tinha tanta certeza dos conselhos que ela dava, que parecia uma rainha cuidando de seus súditos. E ela cuidava de mim, ela sabia que eu precisava dela cuidando de mim. Então eu era a raposa e ela era o Pequeno Príncipe, cabelos dourados que balançam ao vento, jeito de criança curiosa que quer abraçar o mundo, olhar de irmã, mãe, melhor amiga; dona do planeta dela, impenetrável às vezes, dedicada às suas rosas (ela tem duas) e seu baobá e seus pequenos vulcões adormecidos ou semi-adormecidos que insistiam em lhe tirar o sono em algumas noites.
E ela sempre estava lá. Eu não sentia muito medo, porque ela estava lá quando eu precisasse, fosse nos telefonemas ou nos textos que ela publicava.
E essa história não terminou, porque histórias de almas que se encontram e que se alegram nunca terminam.

*Para minha querida Ana Magrit.
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26.1.06
 
"O medo é a extrema ignorância em momento muito agudo".
João Guimarão Rosa, in Primeiras Estórias.
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24.1.06
 
Olha pra você, Kátia Mello!
Olha você, que monte de merda mole espalhada pela calçada da Brigadeiro Luís Antônio, com essa franja ridícula indie e pesada na cara que a Letícia cortou como uma pessoa com Parkinson e esse adidas com um buraco no dedão.
Porra, Kátia Mello, o que aconteceu com você?
Veja só, quanta decadência querendo evitar a decadência! Uma montanha de decadência sem elegância, você nunca teve nenhuma elegância. Você é um macho, você usava até cueca, suas levi's 555 eram tamanho 34, coisa de homem, você não passa de um gay, Kátia Mello. Você é um machinho gay, um meninho que nem o Antony, você so quer ser um pássaro e sair voando por aí. Mas fica carregando esse mochila fedendo a cigarro e marrom de poluição e suor nas costas, meus deus, o que você carrega nesta merda desta mochila? Um corpo? Uma bigorna? Todo o seu sentimento de culpa e obrigação de ser gente grande embrulhados num belo pacote cor-de-rosa com fita vermelha? E você só queria ser um passarinho, né? Só queria se livrar desse peso todo e sair voando por aí, se importanto só com destino-origem-destino e encher sua vida de vazio, o vazio do ar, o vazio do céu, o vazio do azul cristal que cobre a cidade, o vazio do oceano na maré baixa, o vazio de pensamentos, o vazio. Mas você carrega muitos desejos nas suas costas, Kátia Mello, sua decadente.
Muitos desejos, muitos sonhos que pesam toneladas. Os mais pesados que você encontra no mercado, você pega pra si.
Vá lá, Kátia Mello, esqueça esta merda e vá tomar um café preto sem açúcar no bar da esquina.
Vá esvaziar sua bexiga, pare de evitar cruzar com pessoas no banheiro!
Não queria mais ler livros, não queira mais escutar discos, não queira mais ficar indecisa entre uma Elle e uma Entre Livros, compre a Elle, tire essa cueca, vai ser uma avezinha vazia e feliz, não queira mais ficar indecisa entre um cérebro ou um bom coração, escolha o bom coração, escolha o impulso, esolha o calor.
Vai pro samba agora, Kátia Mello. Deixe um bilhete sobre sua mesa com os dizeres "que se foda tudo" e vá para o samba sentir o gosto da felicidade e abraçar a rua e se sentir viva.


Truman Capote, 1970

Vai embora, Kátia Mello. Você não tem mais o que fazer neste mundo. Seu coração está carregado demais pra o que você poderia carregar dentro do peito. Arranque todos esse amores e ódios daí e vai embora. Puta merda, Kátia Mello, você me é uma decepção! Você não consegue soltar essa amarras ridículas.
Kátia Mello, a felicidade tá tão embaixo do seu nariz, como você não consegue ver?
Não chora, Kátia Mello. Não chora. Lágrima não paga conta, não muda destino, não resolve problema. Problema se resolve levantando a bunda da cadeira e trabalhando.
Tchau, Kátia Mello. Está muito difícil de te agüentar hoje.
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hahaha

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23.1.06
 
São raras as vezes que eu me alegro com a chuva.
Gosto de voltar pra casa depois de uma chuva; o céu, o ar, os prédios, tudo parece limpo. Você olha para a avenida e vê até o seu fim, vê tudo claro, brilhante, com vida. Então eu me esforço para pôr a cabeça para fora do ônibus e olhar um pouco em volta e gosto quando a brisa fresca e úmida bate no meu rosto. Dá uma alegria imensa de respirar, sentir o ar entrar nos pulmões, franzir os olhos em busca de de proteção. Solto um sorriso. Sempre.
A gente se acostuma a colocar ferrugem na engrenagem da vida. A gente suja o ciclo natural das coisas, deixa que o tédio, a indiferença e a ira nos tome dia a dia mais do que a emoção, a alegria e a gentileza. Ficamos desgostosos com coisas que foram criadas para nos abençoar. É como se, em alguma momento de nossas vidas, pegamos um abridor de latas e rasgamos nossas retinas. E nos cegamos de tudo que pode nos ajudar a viver um pouco melhor.
E então a gente substitui os elogios ou as graças por reclamações, pouco a pouco. Um dia a gente pára de enxergar um monte de coisas pequenas que poderiam mudar nossas vidas para sempre, porque as atropelamos, porque estamos sempre com muita pressa e com muito sangue nos olhos para vê-las.
Eu não tenho vocação nenhuma para ser uma Polyanna. Mas também não tem vocação nenhuma pra ser um Kurt Cobain.
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22.1.06
 
Já tirei a tinta vermelha dos meus dedos. Se você viu e gostou, pronto, a tinta não tem mais o que fazer lá.
Ando pela casa e me sinto Arturo Bandini.
Percebo que a canção Pwdin Wy, do Grugg Rhys, tem um riff roubado de Mother Nature´s Son, dos Beatles.
E você nem liga pros Beatles, né?
Você é engraçado como a lagartixa listrada do Manuel Bandeira.
É por isso que eu gosto de você. Poderia ficar te observando durante horas e dias e semanas, sem nunca cansar minhas retinas.
Tenho um amigo que falou que eu sou uma das lagartixas dele.
Eu gostei de ser uma das lagartixas dele.
Nunca liguei pras lagartixas. Gostava mesmo era de pescá-las nas paredes da minha casa e cortar o rabo delas, deixá-las partir e ficar vendo o rabinho se contorcendo.
Mamãe nunca ligou para as lagartixas também. Sempre as manteve vivas e livres pela casa. Elas moravam na campainha.
Na caixa da campainha, sabe? Todas as casas têm uma caixa da campainha?
E elas botavam os ovos delas lá na caixinha onde ficava o interruptor da campainha, lá no jardim.
No verão, assim como está hoje, quente, sem brisa, céu infestado de estrelas, elas apareciam.
Você não estava lá quando ele me falou que eu era uma lagartixa dele e eu senti orgulho.
Esqueci de te contar.
E agora você está a um bocado de horas de distância de mim.
E eu entendi que as pessoas não precisam me colocar num lugar muito alto. Eu fico feliz até sendo a lagartixa delas.
Eu vou lá tirar o disco do rapaz galês (que, olha, é cantado em galês, uma língua muito bizarra, mais do que o esperanto ou o chinês) e vou colocar Beatles, escutar uma música bonita como só eles sabem fazer. Um dia eu ainda te convenço a comprar alguns discos deles.
Eu queria dar uma volta na rua e ver algumas pessoas e olhar o neon dos estabelecimentos, tudo a pé, mas de repente tudo parece sem graça. Ah, deus, como tudo está sem graça hoje. Por isso me sinto Arturo, só que um pouco mais covarde, claro, porque minha Camila está lá longe e eu não quero buscar outras Camilas e aqui em São Paulo não tem nem mar pra eu poder sentar na areia e conversar um pouco com mãinha.
I NEED A FIX 'CAUSE I'M GOING DOWN.
Vai passar. Eu não sou o Arturo. Não, não sou.
Deixa eu ser sua lagartixinha também? Eu quero ser a sua lagartixa listrada.
Por isso volta logo. Volta, porque hoje eu achei que meu coração fosse parar.
Bah, como eu tô piegas.
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19.1.06
 
Eu te odeio, mas só um pouquinho assim.
Conversa comigo, por favor.
Senta aqui, vamos dividir uma cerveja e trocar um punhadinho de palavras.
Eu juro que eu não preciso de muito mais do que meia dúzia de minutos ao seu lado.
Meia dúzia de minutos e tudo estaria bem de novo.
Mas você não enxerga isso.
E eu desconfio que você não enxerga porque não quer.

*O pior cego é aquele que não quer ver.
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Prestenção: a morte tá lá. Acorda antes que seja tarde.

Preâmbulo às instruções para dar corda ao relógio

Pensa nisto: quando te oferecem um relógio, oferecem-te um pequeno inferno florido, uma prisão de rosas, um calabouço de ar. Não te dão somente o relógio, muitos parabéns, que te dure muitos e bons, é uma ótima marca, suíço com não sei quantos rubis, não te oferecem somente esse pequeno pedreiro que prenderás ao pulso e passeará contigo. Oferecem-te -- ignoram-no, é terrível ignorá-lo -- um novo bocado frágil e precário de ti mesmo, algo que é teu mas não é o teu corpo, que tens de prender ao teu corpo com uma correia, como um bracito desesperado pendente do pulso. Oferecem-te a necessidade de lhe dar corda todos os dias, a obrigação de dar corda para que continue a ser um relógio; oferecem-te a obsessão de ver as horas certas nas montras das joalharias, o sinal horário na rádio, o serviço telefónico. Oferecem-te o medo de o perder, de seres roubado, de que caia ao chão e se parta. Oferecem-te uma marca, a convicção de que é uma marca superior às outras, oferecem-te a tentação de comparares o teu com os outros relógios. Não te oferecem um relógio, és tu o oferecido, a ti oferecem para o nascimento do relógio.

Instruções para dar corda ao relógio

Lá bem no fundo está a morte, mas não tenha medo. Segure o relógio com uma mão, com dois dedos na roda da corda, suavemente faça-a rodar. Um outro tempo começa, perdem as árvores as folhas, os barcos voam, como um leque enche-se o tempo de si mesmo, dele brotam o ar, a brisa da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão.
Quer mais alguma coisa? Aperte-o ao pulso, deixe-o correr em liberdade, imite-o sôfrego. O medo enferruja as rodas, tudo o que se poderia alcançar e foi esquecido vai corroer as velas do relógio, gangrenando o frio sangue dos seus pequenos rubis. E lá bem no fundo está a morte, se não corrermos e chegarmos antes dela para compreender que já não interessa nada.

_júlio cortázar
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18.1.06
 
Minha vida de tiete

Minha vida de tiete foi bem curta.
Lembro-me do meu primeiro chilique. Foi depois de um show do Pato Fu, em 2001. Eu amava muito o Pato Fu naquela época e eles foram pra Monte Alto. Depois do show, queria visitar o camarim, mas fui barrada pelo segurança. Chorando e resmungando alto, fui para um canto. Falei: "também, quando eu for jornalista, eu vou entrevistá-los e vai ser bem mais legal do que ir até o camarim dar um oi". Batata. Entrevistei os mineiros ano passado. Foi um trem bão que só. Já falei que a mineirada é gente boa demais da conta, né?
Acabamos entrando no camarim, conversamos, filamos uma bóia com eles, tiramos fotos e tudo.
Depois desse dia, só voltei a tietar em 2002.
Lembro-me perfeitamente da cena: eu e Adri sentadas no CA, ouvindo música, falando bobagens e fumando um cigarro com as pernas pro ar (as pernas pro ar eram um fato. A gente sempre estava com as pernas na mesa de centro.). Lembra do CA no quinta andar? Aqueles sofás empoeirados e sebosos, a garrafa de cerveja Filosofia - Chico Nunes (algum trabalho de sala idiota que foi parar lá), os armários sempre vazios, alguns potes de tintas secas, as paredes pixadas com sprai azul turquesa, assim JO, PP, RP e, de azul mais claro, porque era um curso novo, RTV. Os cursos, na Cásper, são tratados por siglas. Quem é de outra faculdade estranha, "como assim JO? Ah, você faz jornal?" Nas outras faculdade é jornal. Lá era sigla.
Foi quando vimos o Edimundo do Againe na coordenaria de jo. Ah, sim, parecia uma boa chance de falar com ele e fomos até lá. Primeiro perguntamos se ele realmente tinha uma banda e quando ia ter show. Ele não tratou a gente mal: ele simplesmente ignorou a nossa presença, respondendo monossilábico a cada pergunta sem desgrudar os olhos do monitor. Um otimista pensaria que o menino é tímido, coitado. Mas eu logo pensei que ele era uma arrogante babaca e desejei que ele enfiasse o hardcore no cu. Oras!
Esse foi o ápice da minha tietagem. Durou mais ou menos dez minutos e morreu ali. Perdi a vontade de falar com qualquer pessoa que tocasse até um triângulo numa banda obscura. Fiquei com raiva. Não sei ser tiete. Depois desse dia, resolvi não falar mais com as pessoas de bandas sobre suas bandas ou por causa de suas bandas.
Tem gente que tem uma visão muito megalomaníaca de si mesmo. E isso me esgota a paciência.
Uma vez a gente foi parar no camarim da festa de um ano da Fun House. Passei umas boas horas tomando cerveja e conversando com o Beto Bruno. Não falamos nenhuma frase sobre a banda. Falamos sobre o avô dele que morreu, sobre as árvores de Porto Alegre, sobre a energia ruim de São Paulo, sobre boas comidas e marcas de cerveja, sobre a filha dele, sobre muitas coisas idiotas. Assim fica fácil, né? Fica fácil quando a pessoa é humana e não se bota num pedestal imaginário que, ah, meu deus, que nojo.
Então quando essas bandas gringas vêm pra cá, eu não tenho vontade de falar nada pra eles, porque ó único laço que eu tenho é a música e eu não falo sobre a banda com os caras da banda. Acho que agora dá pra entender porque eu não pulei no pescoço do Julian Casablancas no camarim e pedi uma foto. Porque na real eu sou fã da música mesmo, não das pessoas. Não sei ser tiete. Tenho preguiça. E eu acho que isso nunca vai mudar.
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17.1.06
 
É fácil gostar de quem escuta a gente.
Difícil é achar quem tem paciência.

* * *
Olha, não é pro Du que eu escrevo essas coisas.
Na verdade, quando eu encomendei o Du, pedi completo de fábrica e ele ainda veio com banco de couro e ar condicionado.
Não tenho do que reclamar. Ele é muito perfeito e tals.
Na verdade, como já havia dito, a vida tá muito estranha.
Talvez eu esteja estranha e não esteja enxergando isso ainda.
Só sei que eu sinto que há um processo aqui dentro e não sei como lidar.
Então quando reclamo, não pense em alguém em específico.
Tem dia que eu tenho raiva de alguém e no outro dia já não tenho mais.
E os posts de amor são todos fictícios também.
Invento só pra botar esse negócio de eu-lírico pra fora.
"Entend?", já diria o Pelé.

Here´s to shutting up:
16.1.06
 
"Solidão é lava que cobre tudo
Amargura em minha boca
Sorri seus dentes de chumbo.
Solidão palavra cavada no coração
Resignado e mudo
No compasso da desilusão"
Paulinho da Viola

"If there's one thing that I learned when I was still a child
It's to be alone"
Belle & Sebastian

"Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais"
Belchior

"Last night I dreamt
That somebody loved me
No hope, no harm
Just another false alarm"
Morrisey

Sabe, eu não estou entendo mais nada do que está acontecendo.
Porque sim, tem alguma coisa acontecendo.
E deve ser coisa grande, porque me causa frio na barriga. De medo.
Eu me assustei quando vi que estava tudo como era antes, mas foi um alarme falso.
Nada está como antes. As coisas todas estão mudando e estou me sentindo sozinha nessa.
Eu não tenho mais vontade de sorrir pra você e pra você e pra você.
Me sinto mal quando você passa perto ou pára pra conversar comigo.
Ou quando você me olha com aquela cara, meu deus, aquela cara de interrogação misturada com desprezo, como se eu tivesse me tornado obsoleta e incógnita.
Eu não sou uma fraca, eu não nasci para ser um deles.
Olhe para mim: eu não sou um deles.
Eu não quero me adequar às regras deles, nem viver do jeito que eles vivem, nem falar sobre as coisas que eles falam, nem ter o sorriso amarelo que eles botam na cara para não parecerem antipáticos.
Eu sou uma forte e vou dar de ombros para tudo isso e não quero me importar com suas dores ou dissabores quanto às minhas atitudes.
Deu a hora de parar de torcer as mãos, franzir a testa, suar frio, gaguejar e me sentir presa às convenções. Oras, eu nunca fui assim! O que eu estou fazendo comigo?
Estou me enchendo de medos, estou cuidadosa e contida e isso faz tanto tempo que eu não dou uma gargalhada de verdade há anos.
Então TCHAU, porque quem tem medo de sofrer, tem medo de amar e de apanhar e de ser feliz e de encher a cara e de dançar conforme o corpo pede e de dar risada e de comer um bolo inteiro de chocolate. E eu não quero ter medo. Eu quero mais é que tudo se foda enquanto eu tô me divertindo.
Não é pra isso que deus botou a gente aqui?
Não sei se a gente que é muito fuçada ou se os outros que são muito bundões.
Mas eu não quero ser um deles. Eu não vou ser um deles. Mesmo que eu tenho que peitar tudo isso sozinha.
Here´s to shutting up:
13.1.06
 
Não consigo escrever.
Vâmo lá, galera, todo mundo comigo: eu não tô conseguindo escrever.
Mas viu, uma dica que eu aprendi esta noite: nunca tome um copo de coca-cola depois de ter gorfado a vida. Machuca a garganta que é uma beleza. Tome um copo de leite, sei lá.
Mímica: brincar de mímica é o futuro.
O disco do Babyshambles: chato.
Ah, a coluna que era pra ter saído hoje: não ficou pronta. Só semana que vem.
Tipo, desencana do Pete Doherty, o moleque dopou a última célula criativa há um bom tempo. No hay banda.
Tu tem muita coisa pra fazer aí?
Divide comigo, porque eu não tenho NADA pra fazer aqui. eee.
Here´s to shutting up:
12.1.06
 
Vou lá crescer e já volto - Parte I

Pois imagine que agora, neste momento em que escrevo, meu corpo repousa na cadeira como o de um bêbado num bar qualquer da Amaral Gurgel. A caneta bate na mesa ao lado, movimento sincronizado que, segundo a segundo, me faz contrair os ombros e mexer as orelhas como um cachorro, num gesto de atenção. Me irrito, como um pedaço de pele do lábio inferior, que a esta altura já está sangrando, deformado.
Não consigo parar de pensar em quantas coisas estão erradas na minha vida e em tudo que tenho que mudar, reformar, reconstruir. Primeiro a preguiça, este pecado capital que me acompanha desde remotos tempos. Lembro quando eu era criança e alguém me dizia: você pode ser a melhor aluna da sua classe, basta você se esforçar um pouco. Então eu fui lá, me esforcei um pouco, fui a melhor aluna da classe até perceber que não fazia diferença alguma ser a melhor aluna da classe.
Sou ciumenta. Ciumenta com meus amigos, meus amores, meus primos, meus CDs, meu travesseiro, sou ciumenta de ego gigante, sinto ciúme de não receber um elogio quando alguém é elogiado ao meu lado. Sou ciumenta de coisas importantes, de coisas banais, de coisas silenciosas, de coisas inanimadas, de papéis. Há quem diga que isso é uma grande bobagem, há quem diga que é pequeneza, mas não vejo um grande mal nisso, além de perder alguns segundos do meu dia sentindo dor de estômago e queimando meus neurônios de alguma espécie de ódio profundo que logo passa.
Aprendi a ler com uns cinco anos. Minha mãe me ensinou umas letras e eu pegava os gibis que meu pai assinava e lia, lia, lia até dormir. Disney, turma da Mônica, Tex, Fantasma. Era legal. Quando entrei na escola, a professora se impressionou com a minha habilidade de ler em voz alta com fluência, ao contrário do resto da turma. Então ela me botou pra ser a oradora da entrega da nossa primeira cartilha e me fez passar várias vergonhas. E eu não entendia nada daquilo, mas detestava. Não sou a maior fã de cerimônias. O que eu queria mesmo era que a professora parasse de maltratar meu primo fanho e o menino órfão que sentava no fundo da sala. Eu odiava aquela mulher. Muito mesmo. E ela puxava meu saco. Então eu não queria ser a melhor aluna da sala porque eu não queria que aquele ser execrável falasse comigo.
Daí eu parei de ser a melhor aluna da sala e parei de freqüentar o mesmo patamar das boas alunas que me ignoravam porque elas eram ricas e eu era pobre e eu queria basicamente que elas morressem. Só que eu não soube ser medíocre, que é o caminho mais fácil para o anonimato e para o conformismo. Eu era um demônio. Não havia mais professora que me agüentasse em sala. Então um dia uma professora histérica me colocou na sala dela. Tia Eliana, lembro bem dela. Ela gritava com todo mundo, menos comigo. Ela me adorava, eu acho. Então aprontava, aprontava e aprontava, mas ela me amava e me tratava bem e me usava como bom exemplo pro resto da classe. Daí eu perdi a vontade de aterrorizar professoras, porque tinha perdido a graça. Daí nasceu a preguiça. Eu não acompanhava mais minha turma. Era, ao mesmo tempo, a melhor aluna de português e a pior de matemática da sala inteira. Não dava conta de fazer 320 divido por sete. Mas sabia conjugar todos os tempos verbais que existem neste país com tantos tempos verbais (que no final não servem pra nada. Ou você usa o pretérito-mais-que-perfeito?)
As coisas só foram piorando. Nos finais do ano eu tinha cada vez mais recuperações pra fazer. E ninguém mais falava "se você se esforçar, você será a melhor aluna da sala". Na verdade eu odiava as melhores alunas da sala. Elas eram todas umas trouxas. Todas umas babacas, sem graça. Eu não queria ser como elas. Tinha preguiça delas. E passei cada ano da minha vida escolar rezando pra que chegasse o dia da minha formatura na faculdade. Pensava "nossa, imagine nunca mais ir na escola! Que delícia!" Botei a preguiça no patamar de pecado capital preferido. Mas há outros pecados capitais no mundo, bem mais divertidos que a preguiça, como a gula e a luxúria. E pra exercitar a gula e a luxúria, tem-se que trabalhar muito, a ponto de a preguiça ser ameaçada de extinção. Então tenho que acabar com a preguiça, antes que ela acabe comigo.
Ah, e as melhores alunas da sala? Estas estão fazendo faculdades de segunda, trabalhando de atendente em um banco idiota no interior, vivendo a mesma vida medíocre de 10 ou 15 anos atrás, namorando aqueles imbecis com carro "tunado", achando que luxúria é ir no shopping em Ribeirão comprar uma bolsa na Le Postiche e assistindo a novela das sete porque não tem nada melhor pra se fazer. Ainda bem que eu não fui a melhor aluna da sala.
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10.1.06
 
Num pequeno distrito no interior de um país sem nome, luzes vermelhas alumiam as alamedas.
Pessoas sem rosto passam de ombros baixos, ostentando corpos esquálidos pela rua de lá.
A cor das luzes apagavam os sorrisos de quem ousava ser feliz.
Havia dentro de ti um monstro de mais de seis metros e três cabeças. Por que ousa dizer que este monstro pode me engolir também?
Quando você me pegava pelas mãos e me levava para andar de bicicleta pela cidade - e voávamos em velocidade ímpar - eu era feliz sem saber.
Pois a felicidade deve ser isso: a inocência do momento.
Quantos sorvetes melaram nossos dedos enquanto contávamos estrelas deitados na grama fresca durante verão, em que o céu fica limpo como um cristal recém-polido, depois que a chuva cai, molha as roseiras do canteiro e as nuvens se abrem e desaparecem, deixando somente aquele cobertor azul-petróleo que fazia lágrimas de felicidade brotar em nossos olhos?
Nossa visão era tão limitada para entedermos que aquilo tudo era amor em dias em que amor é uma coisa tão rara - éramos raros como dois diamantezinhos brutos.
E deixava que sua curiosidade linda brotasse e nos enchesse de perguntas e respostas que inventávamos na hora, só pra nos divertirmos ou pro assunto não acabar.
E depois de brincar no balanço, erámos expulsos pelo guardinha que argumentava que éramos grandes demais praquilo e que poderíamos quebrar os brinquedos das crianças. Nada que é feito de ferro e aço e correntes e amor pode ser quebrado, estragando tanta alegria.
Por fim, saíamos em busca de tatuzinho-bola e joão-que-dorme, pois eram dois seres que esboçavam reação frente às nossas traquinagens: eles se fechavam, fazendo exatamente o movimento contrário a tudo que estávamos vivendo ali, se abrindo, se conhecendo, entrando um na vida do outro sem culpa ou sem medo.
E tudo que eu queria, simples assim, era poder te guardar em uma caixinha de música de veludo púrpura, daquelas que, abertas, apresentam uma bailarina de biscuit dançando uma música melancólica, almofadada de cetim rosa por dentro, bem confortável, pra te ter sempre perto, sempre lindo, sempre querido, mesmo com o seu monstro gigante sempre prestes a me devorar.
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Você já leu a última coluna do ano passado?
Sexta-feira tem mais.

http://super.abril.com.br/super/colunas/jukebox/conteudo_111464.shtml

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9.1.06
 
E tudo permanece igual. Igual, não, um pouco pior.
E tudo está tão igual, ou pior, que meu estômago está doendo.
O que eu esperava encontrar quando chegasse aqui? Um terreno baldio e um bilhete colado à parede: virem-se. Aqui não tem mais nada.
Seria surreal. Seria. Daí, eu não faria nada do que acontece em Hollywood. Nada de sair em busca do prédio, numa aventura heróica em que descobre-se, ao final, que tudo não passou de um mal-entendido com alienígenas que desintegraram a redação por engano.
Na verdade eu simplesmente balançaria os ombros em um movimento de desprezo e conformismo, pegaria o ônibus, pularia na Consolação e caminharia para a minha casa pela Paulista, olhando como a avenida é grande e como há um número elevado de carros aumentando monstruosamente o trânsito e como o calor faz bem para a alma e como é precioso um sorvete no final da tarde, naquela hora em que o sol já está escondido mas ainda faz quentura. E então iria para casa, leria uma revista de mulherzinha e desenharia uns vestidos e veria TV até a vista ficar cansada e então dormiria.
Mas estava tudo no lugar. Tudo tão no lugar que até me comoveu. E o pior não era tudo estar como estava antes: era eu estar no mesmo lugar de antes. Eu tive muita vontade de morrer quando pensei nisso. E tudo estar igual talvez não tenha sido tão ruim, porque me fez perceber o quanto eu preciso mudar.
E com aquela música tocando, uma dorzinha profunda, uma melancolia de fim de férias pegou bem aqui no meu estômago e passou por toda minha pele e fez meus pêlos levantarem, como numa náusea que vem da alma, um asco profundo, repugnância que só eu parecia sentir na face da terra. Então eu me coloquei a escrever, porque Rilke questionou certa vez ¿se lhe tirarem a escrita você morreria?¿, e eu disse que sim, eu morreria sem poder escrever.
E eu tanto não queria ver nenhuma dessas pessoas que cá estou, escondida atrás do monitor. Não quero mais fazer parte disso, não quero mais fazer isso comigo.
Não quero permanecer igual, não quero perceber que eu estou ficando igual a todas as pessoas que eu tenho vontade de cuspir na cara, porque tudo está igual: igual à merda que todo mundo tá metido, os mesmo móveis, as mesmas caras, a mesma merda de salário no final do mês, as mesmas camisas, a mesma artificialidade que me deixa com um nó na garganta. E preciso ir embora porque tem uma pessoa que me desperta os piores sentimentos que um ser humano pode ter.
E tudo estar igual me perturbou porque isso não pode ser natural, estar tudo igual, ou um pouco pior, não poderia ser assim. Ou poderia, ou deve ser assim em todos os lugares e eu é que mudei e que preciso morar em outra casca de tartaruga porque esta ficou apertada e pesada demais pra mim.
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